terça-feira, novembro 22, 2011

Gota D’água – A pior novela que a Globo já fez

Na minha modesta opinião, esse vídeo força uma barra e o acho bastante tendencioso em obliterar uma ação do governo Dilma, o qual a TV Globo odeia.

Mas não vou entrar nessa questão. O que penso é que tendo mais em ser a favor do que contra. Cessar com a construção da usina é cessar com a possibilidade de expandir os recursos do Brasil para aquela região historicamente segregada. Fala-se em índios... a usina não pretende dizimar os índios, antes disso, pretende levar àquelas várias cidades - não apenas indígena, mas mestiça - segregadas econômica e culturalmente, alguma fonte de riquezas. Não bastasse o afastamento geográfico daquelas cidades do Brasil real - esse que tem Facebook 24 horas - há uma disparidade econômica, uma pobreza absurda.

Belo Monte deve gerar muitos empregos, renda, transformação social, além de energia, é claro. Isso, tanto em sua fase de construção, como de produção de energia. Importante lembrar que, para que a usina possa funcionar, é preciso criar acessos, infraestrutura e isso significa estrada, pavimentação, rede de comércio, escoamento melhor de produção, fiscalização. Ou seja, o Estado pode enfim chegar onde nunca esteve.

Ibama, Funai e todos estes órgãos, claro que sob alguma intervenção do governo - compreendem e licenciam as obras e a atividade de produção de energia. É claro que há equilíbrio - ou a busca dele - na relação Progresso-Preservação. Postei no Facebook um vídeo que mostra o interesse dos EUA na não-construção da usina e, qual o interesse dos EEUU? Poupar a Amazônia porque amam o verde e os índios? Não. Potências de mercado sabem que se o Brasil ocupar a Amazônia [ou estado do Amazonas] com indústrias, assumirá, definitivamente, o controle dessa disputada região que querem tanto internacionalizar. Por isso são contra.

Precisamos desenvolver a Amazônia - mantendo sua beleza e recursos, é claro - para termos um Brasil mais igualitário e justo. Precisamos que a Amazônia deixe de ser essa que insistem em chamar de 'terra de ninguém'. Alem do quê, creio, o povo de lá anseia por melhores condições de vida. A indústria ilegal de madeira e talvez até da medicina, já explora e gera tão mais prejuízos ecológicos e econômicos que Belo Monte pode gerar.

O vídeo do Gota D’água diz, em tom trágico, que "as águas inundarão 640 km² de Amazônia". Dito assim parece um estrondo. Na verdade são 516 km². O lago de Furnas em Minas Gerais, um dos maiores do Brasil, “inunda”, 1.440 km² e 3.500 km de perímetro, banha 34 municípios do estado. [Wikipedia]. Quase três Belos Montes.

Acorda! A Amazônia tem 4.196.943 km². O estado do Pará é o segundo maior estado do país com uma extensão de 1.247.950 km². Numericamente, a usina de Belo Monte é uma ocupação mínima em se tratando de sua utilidade. Não é a hidrelétrica de Belo Monte que vai devastar o Brasil.

Uma daquelas atrizes do vídeo diz espantada que a usina vai custar trinta-quanto?. Trinta bilhões de reais. Sim. O pior é que no vídeo repetem 30 bilhões, 30 bilhões, 30 bilhões, feito maritacas. É claro que uma cifra desta assusta qualquer pobre, qualquer cidadão brasileiro comum que nem mesmo sabe dimensionar o que seriam 30 bilhões de reais.

O Brasil arrecada com impostos, por mês, cerca de 75 bilhões de reais, e cerca de 900 bilhões de reais ao ano. O que são 30 bilhões? Claro que é um investimento grande, mas quando se pode relativizar as cifras, aí é outra coisa. Só a copa do mundo deve injetar no país, tanto do governo quanto da iniciativa privada, em especial, cerca de 145 bilhões de reais. É muito? É. E muito mais que os 30 bilhões da usina. Só a reforma do Maracanã, já com as corrupções inclusas, já atinge a cifra de 1 bilhão de reais. Não sou muito bom números, mas todos que aqui estão retirei de sites como IBGE, Governo Federal e até do Jornal Nacional, veja você.

Esse tal movimento Gota D’água é uma falácia. Uma farsa canina travestida na pele branca-cordeira e burguesa de alguns artistas que, ou por ingenuidade ou falta de compromisso, assumiram essa postura política um tanto controversa. O debate é necessário e, pela democracia, não devemos negá-lo. Mas o movimento Gota D’água não debate, ele impõe e aliena pela simples força novelesca que cada um daqueles artistas, cegamente vistos como celebridades e formadores de opinião e caráter - vejam que ironia – imputam na sociedade de massa. Sociedade de massa? Sim. Essa que assiste novela todos os dias, que chora e ri de si mesmo enquanto é debochado na TV.

Isso não é debate. Isso é uma tomada de posição radical que usa do poder de influência – nada científico – para pedir e exigir voto. Me incomoda ver a tão engajada colega Letícia Sabatella nessa mixórdia.

Espero que o governo federal se manifeste e busque, de fato, o debate, assumindo com imparcialidade as diversas faces da democracia e do povo brasileiro.

Bola pra frente. Desligue a televisão.


segunda-feira, outubro 31, 2011

Outro Lado, 31-10-2011

Ou estou ficando velho e rabugento ou o fato de ser um ator sem palco, sem texto e sem vida faz de mim uma voz que, não raro, desagrada alguns ouvidos. Resultado de um drink inebriante com doses de dor-de-cotovelo, comodismo, perfeccionismo e rigor inatingível.

Mesmo assim, e agora de maneira diferente, dissipo meu hálito etílico para dizer as boas novas, para dizer de um outro lado cheio de graça e de vida. Neste domingo, 30, assisti ao espetáculo Outro Lado, desta Cia. Quatroloscinco sobre a qual, até então, eu nada conhecia, embora os atores fossem já velhos e bons conhecidos.

Embora pareça raso, o que posso dizer é que gostei. Que gostei muito. Que gostei demais. Mas por quê? Nunca gosto de quase nada...

Bom, isso tem explicação. Primeiro o ambiente ficcional – ainda que não inicialmente - já me pareceu aconchegante. Gosto de bares soturnos. Gosto das pessoas curiosas que habitam estes lugares. E nesta peça, as quatro personagens são deveras curiosas, inacabadas, sem futuro e com uma pouca memória do passado que mais parece sonho do que história e, além disso, habitam realmente aquele bar. Eles não tinham casa, não tinham nada. O tom escuro das cenas trazia um ambiente vazio de cacarecos cênicos, mas cheio de tensões. Os atores cumpriram seus papéis. Texto, atuação e plasticidade combinavam para uma dramaturgia – possivelmente de origem caótica já que as referências são tantas – una, em linha e, principalmente, com uma história de pano de fundo do mundo da vida. - Chega de caos na cena em que nada se diz! Se for caótico o processo, que seja. Isso é bom, mas, obra caótica nunca gostei. Contemporâneo demais incomoda porque flutua. E artista tem que ter o pé no chão, ainda que seja a lua o lugar de sua cabeça superativa. –

Todo o universo ficcional, sustentado pelas imagens e projeções dos atores na beleza do texto simples e sem palavras difíceis – também não aguento mal-ator dizendo palavras belas, sinonimadas de algum dicionário clássico de português arcaico... prefiro ler poema - pois bem, Outro Lado tem essa boa característica de equilibrar texto e ação, espaço ficcional e imaginação de modo muito polido, cuidadoso e bem tratado. Foi muito bom passar algumas horas dentro daquele bar com aquelas pessoas, ouvindo aquelas histórias que podiam ser outras, ou outras combinações diversas daquelas que lá vivenciamos. Foi bom conhecer aquela trama pela voz das personagens que pouco nos revelavam sobre um mundo que explodia do lado de fora. Essa tensão foi crucial e me manteve atento.

Bom o trabalho dos atores que construíram suas personagens – pra mim são personagens – com critérios, e que jogavam com cenas bem dispostas e bem dirigidas dando um fluxo nada contido, nada extenso, à história e ao tempo que se passava. Destaco o trabalho de Ítalo: consistente, gradativo, tocante. A cantora, ah, a cantora. Traria, ambas, criadora e criatura, para cantar no meu jardim, mas não posso agora, cantora! Tomorrow, sem falta, te levo pra casa!

Me deliciei, me incomodei com o início da peça tão “bifurcado” ou caótico mas que se desenvolveu tão bem e culminou naquele fim pesado, cheio de medo e de morte, quando a cantora, no som de uma nota Pam teve seu corpo morto num Plim, com o braço em queda, estatelando-se da vida. Acabou. Chegou o dia becktiano que parecia não chegar jamais.

Linda a peça. Bati palmas até doer as mãos.

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Mas que diabo foi aquilo de voltar a falar e a querer mais peça? Acabou, meus queridos. No meu ponto de vista, com isso, vocês valorizaram uma técnica em detrimento da arte. Nada mais se pedia. Desnecessário. Não precisava daquele abstract, daquela conclusão de cento-e-quarenta caracteres para a peça linda que acabara de se passar. Não expliquem a piada! Se ri, ri, se não ri, ou sou loira ou rio quando entender.

Se foi pra exibir uma técnica épico-dramática, ou pra romper com uma parede – que nunca existiu, pois a própria disposição de nós, público, plástica e dramaturgicamente era de convivência e cumplicidade – não me pareceu tão necessária. Talvez eu tenha lido mal esta intenção. O que saliento é que eu já havia desistido de comer a pipoca na saída do teatro e, cheio de gozo, queria ir pra casa pensar e digerir tudo aquilo que bebi naquele bar. A voz que se levantou no escuro final da cena foi uma luz lançada sobre uma imaginação que necessitava do escuro para pintar livre as cores daquela história. Excesso de luz cega tanto quanto o silêncio na escuridão.

Beijos, merdas, palmas.

Clecio Luiz

segunda-feira, setembro 12, 2011

Manifesto espetacular?

BH, 08/09/2011

Boa percepção do que acontece em nossa Belo Horizonte, com bom embasamento teórico. Um novo modelo de cidade-de-consumo se revela e, para que a população/cidadão não se reduza a simples consumidor do produto público, da res pública, de algo que lhe é de fruição garantida pelo direito do consenso da lei, necessita-se de uma ação contrária, consciente e ativa. Mas às vezes me pergunto se movimentos efêmeros – tomo a liberdade de citar Praia da Estação - colaboram de fato para essa retomada de consciência.

Digo efêmero porque o Praia da Estação, ou aqueles que o compõem, não pretendem, ao que parece, ter a Praça da Estação como um onde estar, mas antes sim, como um lugar por onde passar. Isto porque o movimento cria uma efemeridade, oriunda do próprio status quo que os integrantes deste movimento ocupam. Em sua maioria, não andam descalços pela praça, não sentam no chão, não vivem a praça enquanto contexto da cidade, não vivem a praça na condição dualista do apolineo-dionisíaco. Não. Antes disso, o movimento de "ocupação da cidade" - desse coletivo - parece-me meramente discurso, puro logos. Isto porque transmitem apenas a ideia de ocupar, mas não ocupam de fato, não habitam, não levam os filhos, os sobrinhos, não levam livros para ler, não aproveitam os dias de sol. Para quê, se o Minas Tênis é logo ali? Se o CEU-UFMG é logo acolá? Trata-se, antes disso, de um discurso espetacular... Talvez porque não se encontra nesse movimento - pelo menos como está posto - a legitimidade de que se necessita. São médicos na luta pela reforma agrária, dentistas na luta dos catadores de papel, ou seja, algo está descontextualizado.

Me pergunto ainda: ocupar a praça para se ter espaço para outra mercadoria, a saber as artes, ou ocupar a praça para que ela seja livre, democrática e isonômica? Parece-me mais uma reserva de mercado, ou "luta de classe" , se é que posso citar assim. Parece-me uma demarcação interessada de territórios.

Ao contrário, percebo outro coletivo de pessoas - agora com legitimidade - que de fato ocupam as praças, que vivem - não no sentido de habitar - de fato nas praças, que dialogam política e esteticamente com aquele espaço. Que estão e são na praça, independente de movimento com data e hora marcada.

Não. Ocupar a cidade não pode ter hora marcada. A cidade não é dentista, não é terapeuta.
Nesse sentido, vejo a legitimidade de ocupar a praça naqueles homens, mulheres e meninos que estão lá agora, nesse pós-feriado de Sete de Setembro, continuando a semana. Vejo legitimidade naqueles que, em sua independência, anacrônica, estiveram no Sete de Setembro se banhando nas águas da fonte - dionisicamente - pra combater essa secura do ar que já incomoda demais BH. Naqueles que estiveram lá no seis de setembro, no quatro maio, no dois de abril, no vinte e nove de fevereiro. Permanentemente.

De todo modo, não desmereço em hipótese alguma os insejos do movimento Praia da Estação. Acho legal, de direito. Nunca fui, nunca irei, mas respeito o direito do manifesto. Creio que pode ser uma semente, uma motriz para a conscientização da sociedade, mas aí é preciso ouvi-la e conhecê-la. Só penso que ele, o movimento, é de ordem espetacular quando deveria ser de ordem política, democrática [desconheço que algum cartaz de convite à praia da estação tenha ido parar nas favelas e nas periferias da cidade - nunca me pareceu ver essa parcela da sociedade no movimento - estranhamente, entenda "ver essa parcela da sociedade" como sendo possível identificá-la a olho nu, pela configuração gestual, indumentária e toda sorte de diferenças simbólicas que temos, desgraçadamente, para discernir fulanos de beltranos -].

Fica meu comentário e meu respeito por você, uma das grandes mentes que pensam nossa cidade!

Ciência popular

Citações anônimas

"posso resistir a tudo, menos às tentações"

"meus gostos são simples:
prefiro o melhor de tudo."

"Todas as grandes idéias são perigosas"